A difícil arte de viver sem drogas


Por Cláudia Pereira //


Nenhuma dor passa em definitivo. O álcool não destrói a depressão. A cocaína não disfarça a infelicidade. A maconha pode ser natural, mas também trás danos ao cérebro.

Que droga usar para fugir da realidade?

Que tal não usar nada, que tal simplesmente encarar a vida de olhos abertos, sendo responsável e adulto?

Eu sei que viver não é tão fácil. Sei que tem dias terríveis em que queremos ficar na cama, lamentando nossas dores e não querendo nada. Compreendo que algumas drogas nos adormecem desses sentimentos de incapacidade total.

Alguns irão comentar bem revoltados: “quem é você para saber o que sinto?”.

Eu sou uma dependente química que sobreviveu ao vícios e que está aqui para falar que tudo é possível.

Não me internei. Tampouco tomei remédios controlados. Tudo o que tive foi apenas uma enorme força de vontade e muito amor de quem amo. Porque realmente sozinho é muito difícil.

Existem momentos em que tudo que queremos é nos trancar em casa com o tal sonhado papelote e usar sem limite nenhum. E vou dizer uma coisa, um viciado só tem três  caminhos claros a seguir: a morte, a prisão ou a falência financeira.

Cheguei perto de algumas delas. Tive duas ameaças de overdose, andei com traficantes barra pesada, e cheguei bem perto de perder meu emprego.

Auto estima eu nunca tive mesmo. E esse é o ponto fraco de todo usuário. A falta de amor a si mesmo. Quem em sã consciência vai achar normal passar dias cheirando pó sem tomar banho, sem comer algo digno, largando emprego e família?

Nesse momento estamos em transe total. Nosso egoísmo é tanto que não nos damos conta do rastro de dor que deixamos pelo caminho. A cocaína entra pelo nariz e nos sentimos poderosos. Deixamos de nos sentir feios, desajeitados e burros. O mundo gira ao nosso redor e nada mais nos importa a não ser perpetuar aquele momento de tesão supremo.

No inicio é devastador. Qualquer dor emocional ou física é eliminada na primeira carreira. Nos sentimos muito espertos por enganar quem nem desconfia do nosso vício. Tanto faz, logo iremos entrar num círculo de usuários fechados. Surgem novos amigos, novas parcerias, novas farras, baladas.  Damos festinhas legais regadas a muita droga e álcool. Bebemos até o dia amanhecer sem pensar em responsabilidade nenhuma.

O mundo parece perfeito. O milagre está feito. Começa nas sextas-feiras e acaba aos domingos. É igual ao inicio de um namoro. Tudo é um conto de fadas. Você sente o coração bater forte, sente falta, precisa ter por perto. Aí começam as desculpas de que sem isso não dá mais para sair. Tipo, sair para dançar sem uma parada no bolso? Nem pensar.  Só beber é careta demais. Imagina tomar água ou refrigerante!!

As semanas vão indo, os meses também. Aí você entra numa paranóia de achar que os seus velhos amigos não lhe servem mais. Se ninguém lhe entende é melhor andar somente com seu grupo de parceiros fieis. Claro que estou falando dos outros irmãos tão viciados quanto nós.

Mas nada dura para sempre. De repente, você  enche o saco de ter a casa cheia e começa a querer regrar o que tem. Começa a achar legal cheirar vendo tv, bebendo cerveja ou dançando na sala. Olhando para um espelho e não se vendo nele. Teu telefone nem toca mais. A única visita que você  recebe é do traficante te deixando mais um papelote.


Se você não tem família ou amigos ou um amor...tá ferrado. Quem irar te tirar dessa?

O  fundo do poço é igual para todo mundo. Quem chega lá conhece a decoração e o cheiro de podre. Quando eu cheguei notei que era um lugar muito escroto para uma pessoa como eu. Minha mãe não me criou para isso. Meus irmãos eram pessoas boas que me amavam. Como meus sobrinhos reagiriam ao saber que a tua tia carinhosa era uma viciada descontrolada? Eu não queria isso pra mim. Sempre morri de vergonha de que se tornasse público o meu jeito doido de viver.

Eu descobri que não era tão esperta  quanto pensava. A minha dor podia não ter cura, mas eu não precisava viver um calvário por causa dela.

Fiz o que poucos fazem: pedi ajuda. Implorei para que enxugassem as minhas lágrimas e que fizessem tudo passar.

Jú me estendeu a mão. Ela me levou  ao N.A. A primeira reunião foi chocante. Até porque os próprios usuários falavam das drogas de uma forma como se fossem o santo Graal. E eu nunca vi assim. Pra mim, cocaína era apenas uma merda que eu cheirava para ficar bem.

Passei três meses nas reuniões e saí por não conseguir me adaptar ao sistema. Tive recaídas e outro princípio  de overdose. Levei outro ultimato e finalmente... fiz uma promessa que cumpro até hoje.

São três anos longe das drogas. Passei por dias difíceis, aliás..todo dia é difícil. A qualquer sinal de raiva ou desapontamento, lá vem a vontade de parar no primeiro beco. Mas, aí eu me lembro de nada irá me trazer de volta a minha infância. A verdade é que cresci.  Sou eu quem devo me amar. A cocaína não opera nenhum milagre. Ela apenas alivia por breves momentos. Quando o efeito passar...a dor surgirá feito uma avalanche! Não existe arrependimento maior que o erro de uma recaída.

Saber que você é um fraco, saber que você não é capaz de limpar a tua própria sujeira de cara limpa é o pior dos sentimentos que já senti.

Quero me orgulhar de quem sou. Quero poder me enxergar como uma pessoa que superou barreiras e venceu lutas tremendas. Não quero ter vergonha da pessoa que fui.

Não estou aqui para posar de mensageira na campanha contra as drogas. Pelo contrário. Eu assumo que ainda sinto falta. Eu não poderia fingir indiferença a tudo que vivi.

Hoje, a cocaína deixou rastros profundos em minha personalidade. Não posso sair sozinha para uma balada sem um certo desconforto. Já recusei drogas e não me arrependo por isso. Mas doeu...como doeu! Fui pra casa com uma dor enorme e contei até dez para não errar de novo.

Me afastei de algumas pessoas, deixei de freqüentar lugares e ambientes. Fiz e faço a minha parte para não cair em tentação. Nem sempre é fácil. Aparecem verdadeiros testes  que colocam em prova toda a tua vontade.

Hoje, eu me sinto decidida a continuar sem muletas. Mas, não me engano. Todo dia é um recomeço. Não digo jamais ou nunca. Eu prefiro pensar que hoje não quero, Hoje eu não preciso. Hoje simplesmente...não!

Quero encher de não todos as noites em que me sentir sozinha ou apavorada. Somente assim poderei continuar nessa recuperação dolorosa, porém...vitoriosa.

Pense da seguinte forma: você entrou nessa por sentir dor...e sairá dessa por sentir dor.

A droga não passa de uma amarga ilusão que acaba tão rápido quanto começou. Não se engane, a sensação de euforia logo dará lugar ao profundo isolamento.

Cada um aprende a reconhecer os próprios sinais de que algo está errado. Sorte sua se você for um desses.

Conheço pessoas que estão há anos insistindo em ter uma relação falsamente saudável com ela. Desses eu me afastei por não poder compartilhar mais nada. Me tornei egoísta o suficiente para me amar em primeiro lugar.

Que cada um encontre o momento certo da sua redenção.  A mim cabe apenas torcer para que os jovens consigam superar o momento do deslumbramento e que não repitam os erros cometidos por adultos tão amedrontados quanto eu.

A vida pode não ser plenamente uma pista de dança, mas eu garanto que olhar pra ela de cara limpa dá um prazer inigualável de missão cumprida.


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1 Comentários:

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TUCUMAREIAMAR
Administrador
6 de agosto de 2011 15:11 ×

Parece que os homens estão indissoluvelmente ligados às drogas. Orientando e dando muito amor aos que precisam mais ainda aos jovens, preservando a família, temos uma obrigação com nossos filhos vamos pensar neles mais no que nossa insatisfação pessoal vai lembrar que formamos uma família e temos obrigações com ele, pq as pesquisas indicam que a maioria dos jovens que caem na droga vem de famílias desestruturadas ou de pais separado. O nosso mundo é um tremendo caldeirão de drogados que de várias e exclusivas formas mantém uma estrutura de ilusão para anestesiar o estresse da realidade. Um grande problema social que deverá ser combatido através de educação e informação. Os pais impondo limites também já é um bom e precioso começo.abs

TUCUMAREIAMAR
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