[RESENHA] Carta a meu juiz, de Georges Simenon



Sinopse:

Meu juiz,

Eu queria que um homem, um só, me compreendesse. E gostaria que esse homem fosse o senhor. Passamos longas horas juntos, durante as semanas da instrução. Mas então era cedo demais. O senhor era um juiz, era o meu juiz, e teria parecido que eu queria me justificar. Agora sabe que não é disso que se trata, não é?

Ignoro a impressão que teve quando entrou no tribunal. É um lugar com o qual evidentemente está familiarizado. Quanto a mim, recordo muito bem sua chegada. Eu estava sozinho, entre dois guardas. Eram cinco horas da tarde, e a penumbra começava a se formar como nuvens na sala.


Resenha, por Juçara Menezes //

Sou muito fã de Georges Simenon desde quando descobri, na biblioteca que herdei do meu pai, um exemplar com o famoso Inspetor Maigret. Desde então, fiquei obcecada pelo policial de andar duro, sobretudo pesado e fumador de cachimbo inveterado. Comecei minha coleção, que não será terminada tão cedo: são 75 obras com o detetive (e eu não tenho nem 20...).

Eis que, procurando por livros dele, encontro 'Carta a meu juiz', o primeiro sem Maigret que leio. Fiquei tão louca em descobrir como o autor escrevia sem o policial que devorei o livro em dois dias.

Não para menos, Carta a meu juiz é extremamente psicológico, fazendo-nos amar e odiar o personagem principal a cada página. O livro é narrado em primeira pessoa por Charles Alavoine, um médico que teve uma vida totalmente patética, sem nenhuma grande aventura ou ação que valesse realmente a pena.

Uma coisa fica bem clara logo no início da narrativa: Charles já está preso e não nega o assassinato, mas só sabemos como ele chegou a isso do meio para o fim do livro.

Depois de formado, e com o pai falecido, ele se muda para o interior da Bélgica com a mãe, onde monta seu consultório. Ele se casa por convenção e tem duas filhas.

Apesar de gostar das filhas, é óbvio que ele não gosta de si mesmo, negando toda e qualquer emoção boa para si. Charles é gado, conformado em passar todo o resto da vida naquela igual ignorância que atinge os homens comuns e sem perspectiva de absolutamente nada, a não ser trabalhar para poder comer e comer para trabalhar.

Com o falecimento da primeira esposa e a doença da filha mais nova, eis que surge à casa a pequena burguesa Armande. Bonita, estudada e viúva, Charles é praticamente obrigado a casar-se com ela, que prontamente começa a mandar e desmandar na casa, para o desespero da mãe do médico.

A vida continua medíocre até que, chamado à outra cidade para cuidar de um paciente, Charles conhece a 'experiente' Martine, por qual se apaixona loucamente. É quando finalmente o médico percebe o que é a vida e o amor e está disposto a tudo para viver este sentimento.

Depois que terminei o livro, por acaso me caiu em mãos um conto de Edgar Allan Poe, intitulado 'O demônio da perversidade', o primeiro da coletânea de contos 'Assassinatos na Rua Morgue'. Assim que terminei de ler, imediatamente me perguntei quem tinha vindo primeiro (ou quem inspirou quem). No caso, foi o Corvo quem nasceu e morreu antes de Simenon.

E então me veio a pergunta: quem foi mais brilhante: quem resumiu um sentimento louco em um conto ou quem conseguiu escrever um livro inteiro sobre o mesmo assunto?




Geoges Simenon

Georges Simenon (1903-1989) nasceu em Liège, na Bélgica, nas primeiras horas de uma sexta-feira 13. Mudou-se para a França, onde se estabeleceu como jornalista e escritor. Tornou-se um dos mais profícuos e festejados  ficcionistas do século XX, com mais de 200 romances publicados.




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