A santa avó da Santa Ceia



Foto: Elo7

Por Cláudia Pereira // 



Minha avó dizia que eu jamais deveria adorar algo que não fosse Deus.

Tadinha, ela acreditava demais nas palavras dos homens.

Orava por todo mundo, andava com um caderninho cheio de oração.

No bolso do vestido, uma penca de balas de hortelã.

No outro, moedas e trocados para uma pipoca.

Embaixo do braço, o bendito objeto de devoção.

Eram orações que ela mesma inventava ou copiava.

E ainda tinha  fotos de todos a quem ela amava.

Pegava a fotinha e fazia o sinal da cruz.

Pedia que fôssemos  protegidos e amparados.

Eu achava tudo muito lindo até que um dia dei por falta de uma foto de uma prima minha.

Eu perguntei: “Vó...porque a foto da fulana não tá aqui entre as nossas?”.

Ela respondeu: “Não rezo por ela porque não precisa, essa menina não gosta de mim...e eu também não gosto dela”.

Fiquei muito impressionada com a resposta.

Pensei que o amor fosse igual para todo mundo.

Mas pelo jeito, vovó tinha lá suas determinações quanto ao amor incondicional.

Foi nesse dia que entendi que eu não era obrigada a gostar de todo mundo.

Entendi a mensagem e a usei como ensinamento divino.

Essa atitude não me fez deixar de amar minha vovó.

Pelo contrário, a admirei muito mais.

A velhinha amada nunca me aconselhou a procurar a salvação na igreja.

Ela me dizia que ia porque se sentia muito bem lá dentro.

E eu a acompanhava  porque pensava nas comidas gostosas que me esperavam na feira.


Como eram longos aqueles 60 minutos.

Eu não queria me ajoelhar, nem cantar as músicas.

Só pensava nos quitutes das bancas e da mãozinha dela me acariciando a nuca.

Isso era o suficiente.

Melhor que todas as orações, mais emocionante que qualquer sermão.

Saíamos de lá de mãos dadas pelas ruas da Aparecida.

O caminho era longo e delicioso.

 Eram passeios lentos, comungados entre nós duas em silêncio.

As vezes sinto-me culpada por não ter a fé enorme de minha amada avó.

Sinto não comungar com os pecados divinos,  nem com as palavras santas do papa.

Espero que ela entenda as minhas limitações e que me perdoe a falta de jeito com o divino.

Não é que eu odeie Deus.

Apenas não gosto das religiões que operam em seu  nome. Não acredito  que todo tipo de amor é pecado  e que somente homens e mulheres possam  gozar do santo matrimônio.

Me perdoem, eu penso demais para me permitir ao desfrute de crer em sacrifícios morais.

Eu sei que Deus não me odiará se  não procriar ou se não cuidar das cuecas do meu marido.

Ele não irá me excomungar se eu amar uma mulher ou a um coelho.

Posso amar um gato. Uma foto do Elvis. Ou um bom prato de feijão.

Eu nunca fui  crente em relação a  nada que a igreja católica ensina.

 Pra mim, não passam de palavras vazias, de lições de morais recheadas de mentiras.

Não acho que um padre poderá me perdoar dos meus erros humanos.

Eu não sinto a presença da divindade quando entro nessa igreja criada pelos homens.

Eu já fui. Entrei lá e fiquei sentada, olhando para os santos, para os bancos, para a limpeza de tudo.

Tentei orar com sinceridade.

Senti uma pontada de agonia por não ser como todo mundo.

Nem em um milhão de anos vou convencer alguém de que sou devota católica apostólica romana.

Assumo o meu dom para a solidão da oração.

Me deito com a cabeça tranqüila, em paz.

E durmo porque me sinto filha de Deus.

Quem vai  me convencer do contrário?

Tente agora ou desista para sempre.
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1 Comentários:

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Norberto Gurgel Filho
Administrador
24 de dezembro de 2013 18:14 ×

Faço ideia de como era bom caminhar com as mãos dadas a de sua avó. Bj

Norberto Gurgel Filho
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